José Leite é Estudante de Direito, Presidente da JN-RO (Juventude Negra de Rondônia) e Tesoureiro da UEE/RO. Residente em Porto Velho no estado de Rondônia, semanalmente ele escreve para está coluna destacando a história, os desafios e as conquistas do movimento Afro no Brasil.

A história do Brasil está indelevelmente atrelada ao maior genocídio do mundo.

25/11/2007

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A história do Brasil está indelevelmente atrelada ao maior genocídio do mundo. Para se ter uma idéia do massacre, dos séculos XV ao XIX, a África perdeu negros que foram escravizados ou mortos numa cifra de cerca de 65 a 75 milhões de pessoas. O passado é eterno e se amanhã triunfar a paz e a justiça, nada jamais poderá apagar o profundo desespero desses milhões de seres humanos: desumanização de populações, o terror exercido com total impunidade, estupro, suicídio de vitimas, exploração até a morte e a ganância sem limites dos carrascos.

A escravidão não foi um acidente da história, ela foi uma política de Estado.  A principal base da economia brasileira foi o trabalho escravo. Por isso, costumamos perguntar o seguinte: no Brasil quem são os ricos? São os que tiveram escravos para construir suas riquezas e ficaram com os bens que os negros produziram. Quando houve a “abolição” o negro não teve direito a indenização. Logo se o negro não obteve dinheiro nesse processo, ele teve e tem até hoje uma qualidade de vida muito prejudicada. Nesse país se fala muito de herança, mas a herança que as pessoas edificaram foi em cima de um povo que trabalhou gratuitamente para eles. Passados mais de cem anos da “ libertação dos escravos”, o Brasil e os países que se beneficiaram com o trabalho dos africanos e seus descendentes ainda não acertaram as contas com as vitimas do holocausto negro.

O que alguns grupos étnicos sofreram é motivo de comoção social e também da indenização dos descendentes das vitimas do horror, porém, está atrocidade foi praticada durante séculos contra os negros da África e seus descendentes, sem que a sociedade se questionasse. Pelo contrario, neste caso, até hoje foram os agressores os únicos indenizados.

O Haiti foi o primeiro país a realizar a abolição da escravidão juntamente com a sua independência e aonde se chegou a liberdade através de uma revolução negra. Esse fato teve repercussão em todo o continente Americano, de tal forma que podemos considerar que a abolição que se deu em outros países foi direta ou indiretamente resultado desta primeira abolição. Este país,um dos mais pobres do planeta, pagou a França, até 1946, 150 milhões de franco-ouro destinados a compensar os colonos, após a independência conquistada em 1804.

No Brasil, último país do mundo a abolir a escravidão, os negros tornaram-se “livres”, através de leis que visavam antes de tudo beneficiar os proprietários de escravos. Em 1871, foi aprovada a lei do Ventre Livre declarando que  os filhos de escravas que nascessem a partir daquela data, seriam criados por seus proprietários até a idade de 8 anos, após está faixa etária, o senhor de engenho  teria a opção de receber do Estado  a indenização de 6000$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até  a idade de 21 anos.

Em 1885, foi promulgada a chamada Lei do Sexagenário, que dava liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade. A titulo de indenização, porém, o idoso deveria trabalhar gratuitamente mais 3 anos. Essa lei agradou os fazendeiros, pois ficavam livres dos escravos improdutivos.

O Decreto nº 1.331, de 1854 e o aviso Imperial 144, de 1864, proibiam o acesso de escravos a escola, e contribuíram para a exclusão do negro da formação do Estado nacional. A Coroa Portuguesa após a proibição do trafico negreiro em 1850, concedeu nacionalidade portuguesa aos traficantes brasileiros estabelecidos na Costa d`África e atribuiu a alguns deles títulos de nobreza.

O regime republicano ao invés de libertar socialmente os negros no Brasil reafirmou sua subalternidade ao excluir do direito de voto o analfabeto e ao definir uma política de imigração européia, considerando publicamente o trabalhador europeu como um elemento civilizador e o trabalhador descendente de africano como barbarizador e incompetente. O Brasil concedeu terras e incentivos fiscais para os imigrantes europeus. Todavia se estabelecermos conexões da abolição com outras situações, como a imigração, o que é que verificamos? O que foi, então, fornecido aos negros libertos? Quanto por exemplo, o Estado gastou com os negros? Nada. E quanto gastou com os imigrantes europeus? Muito.

Nada, de tudo isso, impede reparar os danos do passado. As vitimas da ditadura militar. A companhia imobiliária de Petrópolis  recebe um imposto de 2,5%  (denominado laudêmio)  pela venda de imóveis, os Príncipes de Orleans e Bragança descendentes do primogênito de D.Isabel recebem os rendimentos, devido a acordos familiares do passado.  Porém o crime do escravismo, praticado durante séculos neste País, goza de escandalosa impunidade.

Os judeus sofreram sete anos de trabalho forçado e extermínio nos campos de concentração nazista, este povo tem recebido indenizações por este crime, inclusive a criação do Estado de Israel, recentemente, um juiz federal dos EUA aprovou o pagamento de uma indenização recorde de US$ 21, 9 milhões aos herdeiros de duas famílias vitimas do holocausto Judeu, US$ 1,2 bilhão foi pago em indenização aos japoneses detidos nos EUA na Segunda Guerra.

A indenização será uma porta para autodeterminação o financeira dos afro-brasileiros. Não vemos a indenização apenas como uma forma de reparação do mal que nos foi infligido, mas também do país se reconciliar, corrigir-se com um povo, pela maneira como o tratou. Pois só o pedido de perdão e a solidariedade não nos é suficiente, queremos ser indenizados, como ocorre com outros grupos étnicos e sociais.

 José Leite